Pequena sonhografia de Carl Gustav Jung
Seleção feita por José Luiz Balestrini Junior

Aos 3 ou 4 anos
O Deus subterrâneo
O presbitério fica isolado, perto do castelo de Laufen, e atrás da quinta do sacristão estende-se uma ampla campina. No sonho, eu estava nessa campina. Subitamente descobri uma cova sombria, retangular, revestida de alvenaria. Nunca a vira antes. Curioso, me aproximei e olhei seu interior. Vi uma escada que conduzia ao fundo. Hesitante e amedrontado, desci. Embaixo deparei com uma porta em arco, fechada por uma cortina verde. Esta era grande e pesada, de um tecido adamascado ou de brocado, cuja riqueza me impressionou. Curioso de saber o que se escondia atrás, afastei-a e deparei com um espaço retangular de cerca de dez metros de comprimento, sob uma tênue luz crepuscular. A abóbada do teto era de pedra e o chão de azulejos. No meio, da entrada até um estrado baixo, estendia-se um tapete vermelho. A poltrona era esplêndida, um verdadeiro trono real, como nos contos de fada. Sobre ele uma forma gigantesca quase alcançava o teto. Pareceu-me primeiro um grande tronco de árvore: seu diâmetro era mais ou menos de cinquenta ou sessenta centímetros e sua altura aproximadamente de uns quatro ou cinco metros. O objeto era estranhamente construído: feito de pele e carne viva, sua parte superior terminava numa espécie de cabeça cônica e arredondada, sem rosto nem cabelos. No topo, um olho único, imóvel, fitava o alto. O aposento era relativamente claro, se bem que não houvesse qualquer janela ou luz. Mas sobre a cabeça brilhava uma certa claridade. O objeto não se movia, mas eu tinha a impressão de que a qualquer momento poderia descer do seu trono e rastejar em minha direção, qual um verme. Fiquei paralisado de angústia. Nesse momento insuportável ouvi repentinamente a voz de minha mãe, como que vinda do interior e do alto, gritando: — "Sim, olhe-o bem, isto é o devorador de homens!" Senti um medo infernal e despertei, transpirando de angústia.

Aos 12 anos
Deus em seu trono
Reuni toda a coragem, como se fosse saltar nas chamas do Inferno, e deixei o pensamento emergir: diante de meus olhos ergue-se a bela catedral e, em cima, o céu azul. Deus está sentado em seu trono de ouro, muito alto acima do mundo e, debaixo do trono, um enorme excremento cai sobre o teto novo e colorido da igreja; este se despedaça e os muros desabam.”

Aos 34 anos
Descida às camadas profundas da psique
Eu estava numa casa desconhecida, de dois andares. Era a "minha" casa. Estava no segundo andar onde havia uma espécie de sala de estar, com belos móveis de estilo rococó. As paredes eram ornadas de quadros valiosos. Surpreso de que essa casa fosse minha, pensava: “Nada mal!” De repente, lembrei-me de que ainda não sabia qual era o aspecto do andar inferior. Desci a escada e cheguei ao andar térreo. Ali, tudo era mais antigo. Essa parte da casa datava do século XV ou XVI. A instalação era medieval, e o ladrilho, vermelho. Tudo estava mergulhado na penumbra. Eu passeava pelos quartos, dizendo: "Quero explorar a casa inteira!" Cheguei diante de uma porta pesada e a abri. Deparei com uma escada de pedra que conduzia à adega. Descendo-a, cheguei a uma sala muito antiga, cujo teto era em abóbada. Examinando as paredes, descobri que, entre as pedras comuns de que eram feitas, havia camadas de tijolos e pedaços de tijolo na argamassa. Reconheci que essas paredes datavam da época romana. Meu interesse chegara ao máximo. Examinei também o piso recoberto de lajes. Numa delas, descobri uma argola. Puxei-a. A laje deslocou-se e sob ela vi outra escada de degraus estreitos de pedra, que desci, chegando enfim a uma gruta baixa e rochosa. Na poeira espessa que recobria o solo havia ossadas, restos de vasos, e vestígios de uma civilização primitiva. Descobri dois crânios humanos, provavelmente muito velhos, já meio desintegrados. Depois, acordei.

Aos 38 anos
Sonho: O sacrifício do herói
Encontrava-me numa montanha solitária e rochosa, com um adolescente desconhecido, um selvagem de pele escura. Antes da aurora, o céu no Oriente já estava claro e as estrelas começavam a apagar-se. Sobre as montanhas ecoou a trompa de Siegfried e compreendi então que precisávamos matá-lo. Estávamos armados com fuzis e ficamos de emboscada num caminho estreito. Súbito, Siegfried apareceu ao longe, no cume da montanha, ao primeiro raio do sol nascente. Desceu em louca disparada pelo flanco rochoso, num carro feito de ossos. Ao surgir numa volta, atiramos contra ele e o abatemos, caindo mortalmente ferido. Cheio de desgosto e de remorsos de haver destruído algo tão belo, preparei-me para fugir, impelido pelo medo de que o crime pudesse ser descoberto. Desabou então uma violenta e copiosa chuva que, eu sabia, faria desaparecer todos os vestígios do atentado. Eu escapara do perigo de ser descoberto, a vida podia continuar, mas persistia em mim um sentimento intolerável de culpabilidade.

Aos 51 anos
O encontro com a Alquimia
Estou no Tirol do Sul, durante a guerra. Encontro-me no front italiano, prestes a retirar-me com um homenzinho, um camponês, na carroça do qual nos achamos. Em torno explodem obuses e sei que é preciso nos afastarmos tão rapidamente quanto possível, pois nos encontramos em grande perigo. Tínhamos que atravessar uma ponte e depois um túnel, cuja abóbada tinha sido parcialmente destruída pelos obuses. Chegando ao fim do túnel, vimos diante de nós uma paisagem ensolarada: reconheci a região de Verona. Mais abaixo estava a cidade iluminada pelo sol. Senti-me aliviado enquanto nos dirigimos para a planície lombarda, verdejante e florida. A estrada serpenteava através de belas paisagens primaveris e admiramos arrozais, olivais e vinhedos. De repente, avistei, interceptando a estrada, um edifício grande, uma casa senhorial de grandes proporções, semelhante a um castelo de algum príncipe da Itália do Norte. Era uma morada senhorial característica, com muitas dependências e edifícios anexos. Tal como no Louvre, a rua levava ao castelo através de um grande pátio. O cocheiro e eu atravessamos um portal e pudemos então, de onde nos encontrávamos, perceber de novo a paisagem ensolarada, através de um segundo portal mais distante. Olhei em torno: à direita, a fachada da morada senhorial; à esquerda, as casas dos empregados e as cavalariças, as granjas e outras construções anexas que se estendiam ao longe. Enquanto permanecíamos no meio do pátio, diante da entrada principal; ocorreu algo inesperado: com um baque surdo, os dois portais se fecharam. O camponês saltou do banco da carroça e gritou: "Eis-nos agora prisioneiros do século XVII!" Resignado, pensei: "Sim, é isso! Mas que fazer? Eis-nos prisioneiros por muitos anos!" Depois tive um pensamento consolador: algum dia, depois de passados esses anos, poderei sair.

Aos 85 anos
Unio Mystica
Poucos dias antes de sua morte, Jung contou sobre um sonho que teve, o último que ele conseguiu comunicar. Ele via uma grande pedra redonda num lugar alto, uma praça árida, na qual estavam inscritas as seguintes palavras: "E isto será para ti um sinal da Totalidade e da Unidade.” Então ele via, à direita, vários receptáculos numa praça aberta e um quadrângulo de árvores, cujas raízes circundavam a terra e o envolviam. No meio dessas raízes brilhavam fios de ouro”
(Marie-Louise von Franz, em Jung, seu mito em nosso tempo)
